Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vitima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Augusto Cury

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

TRABALHO: DIGNIFICA OU DANIFICA O HOMEM

A questão do trabalho e suas implicações, como também, o estudo das relações que envolvem o capitalismo e a interferência dos aspectos social, econômico e político, interessaram especialmente ao pensamento marxista.
O complicado universo do trabalho, que se mostra como vital e ao mesmo tempo problemático, vem sendo objeto de análise de diversas áreas do conhecimento. O intuito dos pesquisadores tem sido no sentido de compreender os variados aspectos ligados a essa atividade, desde o ponto de vista do seu potencial emancipador até o da sua capacidade de envilecer o homem.
Em meados do século XIX, ao formularem suas premissas acerca das mudanças da história Karl Marx e Frederich Engels, romperam com o que chamavam de idealismo, concepção pela qual o ponto de partida de toda a história seriam as idéias ou os conceitos.
De acordo com Marx e Engels o principal representante desse pensamento idealista seria Hegel, segundo o qual o auto-desenvolvimento dos conceitos é o que determina o devir histórico. Ao romperem com essa concepção formulam o Materialismo Histórico, como um método científico de análise da história, partindo não mais das idéias, mas da realidade concreta.
A premissa de toda história dos homens é o fato da existência destes, enquanto seres vivos reais, nesta premissa funda-se o materialismo histórico. Dessa forma, os pensadores procuraram investigar quais as reais condições de existência da humanidade, para poderem explicar a realidade.
Para compreender a história Marx e Engels precisavam descobrir a essência humana, o que o tornava um ser, distinto dos demais. Nesta investigação surge uma das categorias mais importantes do materialismo histórico, sobre a qual Marx e Engels desenvolveram todo o seu conceito de homem e de sociedade: o trabalho.
            Segundo eles o homem se diferencia dos demais animais fundamentalmente pelo fato de produzirem os seus próprios meios de existência.
            Para Marx e Engels, o trabalho era a forma de mediação entre o homem e a natureza, o que o leva a relacionar-se com a natureza e interagir-se com ela no sentido de consolidar a sua própria condição de existência. É através do trabalho que o homem se constitui enquanto ser social e relaciona-se com os outros homens.
            O trabalho pode ser compreendido como o elemento fundante da vida humana, ou seja, o momento em que os homens tornam-se seres humanos. Ademais, é através do trabalho que os homens, ao mesmo tempo, transformam a natureza, seu próprio meio, e também transformam a si mesmos.
            É nesse sentido que a centralidade da categoria do trabalho, como elemento mediador da atividade humana com a natureza e sociedade apresenta-se como o escopo para compreender as dimensões da complexidade definidora do atual modelo social e suas implicações socio-ambientais.
Assim, entende-se que, o trabalho pode ser considerado como o momento crucial da vida humana, o ponto de partida do processo de humanização. Contudo, a sociedade capitalista o transforma em trabalhador assalariado, alienado, produto do trabalho fetichizado. O que era uma finalidade central do ser social converte-se em meio de subsistência. O que deveria ser uma libertação torna-se uma necessidade. A força de trabalho é considerada mercadoria - ainda que especial - cuja finalidade é produzir novas mercadorias e valorizar o capital.
Por conseqüência natural, o trabalhador decai à situação de mera mercadoria, é coisificado, torna-se um ser estranho, um meio de sua existência individual à mercê do capital. O que deveria ser fonte de humanidade se converte em desrealização do ser social, alienação e estranhamento dos homens e mulheres que trabalham. Deste modo, o trabalhador não mais se satisfaz no trabalho, mas se degrada; não se reconhece, ao contrário, muitas vezes se desumaniza no trabalho.


Nesse sentido, percebe-se duas faces do trabalho. A que dignifica o homem, proporcionando-lhe realização e participação do projeto e realização do produto do seu trabalho. Como afirma Aristóteles, o trabalhador não é apenas a causa eficiente, ele participa também da destinação, da causa final do seu trabalho, além da escolha da causa material e formal. Sob esse prisma, o trabalho é uma atividade tipicamente humana, ou seja, o homem busca constantemente a perfeição, o trabalhador faz uso da sua razão.
            Por outro lado, tem-se a questão do trabalho que danifica o homem, ou seja, o trabalho que aliena o homem ou escraviza-o. O trabalhador perde o controle sobre o projeto do trabalho e sobre os seus benefícios: isto é alienação do trabalho, onde as tarefas, para o homem, tornam-se repetitivas e monótonas.

A mudança qualitativa produzida no trabalhador durante a experiência de trabalho se realiza através de um método intencional de organização social e política, que avança na produção de uma cultura do coletivo e da tendência à superação das relações alienadas no trabalho, fazendo com que os trabalhadores se reconheçam no processo do trabalho, no seu produto, como também no âmbito das relações sociais construídas. A potencialidade do trabalho se evidencia no processo de produção desta cultura, em oposição ao modo de reprodução social do capital que subordina o trabalhador à alienação e ao total descontrole da produção material e das decisões políticas.
A dialética do trabalho, o movimento da afirmação e da negação dos homens no constante processo de criação de individualidades e sociabilidades históricas que materializam a reprodução do ser social, não deve estar isolada da totalidade da práxis social. A cultura, a política, a ideologia, a ética são mediações fundamentais que marcam a historicidade da vida social e a relação existente entre indivíduo e gênero humano. Não se pode esquecer que estas mediações, assim como o trabalho, também estão determinadas por processos contraditórios, delimitando particularidades e complexidades no conjunto das relações sociais de uma época histórica.
O capital, na sua auto-valorização destrutiva, renova sua imposição como relação social hegemônica, que domina o conjunto das relações humanas. O mundo do trabalho, constantemente reorganizado em função da expansão dos valores de troca, da concentração de riqueza, de conhecimento e de poder, está marcado pela reprodução de relações sociais de violência, de alienação e desumanização. A barbárie intrínseca à lógica de reprodução do capital assume na atualidade a forma histórica de uma identidade incontestável, justificando os diversos níveis dos atos de violência que atravessam a sociedade como próprios da “natureza humana”.
A afirmação como a negação do trabalho é produzida pela práxis de sujeitos históricos concretos, criando assim uma cadeia temporal de alternativas, de escolhas e de determinações, que marcam tanto o processo de alienação, quanto de humanização dos homens.


REFERÊNCIA 
ANTUNES, Ricardo (Org.) A Dialética do Trabalho. Escritos de Marx e Engels. São Paulo: Expressão Popular. 2004.

KARL MARX E A HISTÓRIA DA EXPLORAÇÃO DO HOMEM

  KARL MARX Nasceu em Treves, na Alemanha (1818-1883). Doutorou-se em Filosofia. Foi redator de uma gazeta liberal em...