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A prática de esportes na terceira idade

A era contemporânea caracteriza-se por diversas transformações: históricas, filosóficas, econômicas, políticas e sociais, as quais deixam um legado importante para a humanidade. E um dos fenômenos sociais que mais tem se destacado e demarcado seu espaço é o aumento acelerado da população de idosos, que ocorre praticamente em todo o mundo.
Estima-se que em 2025, 34 milhões de pessoas, ou seja, 15% da população brasileira, estarão com idade superior a 60 anos e, nesse período, ocorrerá um aumento de 6,5% de idosos ao ano e um decréscimo nos números absolutos de jovens entre 0 e 14 anos (GONÇALVES, 2001). Com o aumento crescente da população com idade superior a 60 anos, a geração de conhecimento sobre o processo de envelhecimento populacional e suas decorrências adquire significativa importância para o Brasil, a exemplo do ocorrido em países desenvolvidos.
Pode o fator idade pode representar um influenciador do processo de desenvolvimento da prática de esportes como natação e hidroginástica. Como orientar pessoas da terceira idade a praticar tais esportes e alcançarem melhor qualidade de vida?
Sabe-se que a prática de esportes desde a infância é uma das recomendações médicas no sentido de se adquirir desenvolvimento físico saudável. A prática de esportes também influencia em outros aspectos da vida humana. No entanto, ao se atingir certa idade muitos acreditam não precisarem mais praticar qualquer tipo de esporte. Atividades como natação e hidroginástica são grandes contribuintes não só para o desenvolvimento, mas, também, para o auxilio da cura de problemas respiratórios, musculares, ortopédicos, etc. Dessa forma, pessoas que atingiram a terceira idade têm nessas atividades grandes aliadas na conservação de sua saúde física, mental, etc., adquirindo, assim, melhor qualidade de vida.
Um dos aspectos importantes que mais vem sendo discutido pelos estudiosos do meio acadêmico que pesquisam sobre este tema, é que esta fase de vida não é alcançada de uma forma satisfatória sem que se façam presentes os surgimentos de problemas, quer sejam de ordem orgânica ou psicológica.
Segundo Vieira (1996) e Lopes (2000), os processos de envelhecimento se iniciam desde a concepção, sendo então a velhice definida como um processo dinâmico e progressivo no qual ocorrem modificações, tanto morfológicas, funcionais e bioquímicas, como psicológicas, que determinam a progressiva perda das capacidades de adaptação do individuo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos. Sociólogos e psicólogos chamam a atenção para o fato de que, além das alterações biológicas, podem ser observados processos de desenvolvimento social e psicológicos alterados em algumas das suas funções, como também problemas de integração e adaptação social do indivíduo.
Os efeitos do envelhecimento na aptidão física e na capacidade funcional têm sido bem descritos na literatura científica. Um dos efeitos do processo do envelhecimento no ser humano é a diminuição do nível de atividade física.
A hipótese biológica formulada para explicar o declínio do nível de atividade física com a idade cronológica seria a da dopamina, que age sobre algumas áreas específicas do cérebro, e que está relacionada com a motivação para a locomoção. No entanto, além do fator biológico, outros fatores não biológicos, como variáveis psicológicas, sociais e do ambiente físico, estão relacionadas ao nível de atividade física.
Um dos dados intrigantes descoberto em pesquisas sobre a relação entre atividade física e longevidade veio da evidência de que o estilo de vida sedentário tem um efeito no cumprimento dos telômeros dos leucócitos e, portanto, pode acelerar o processo de envelhecimento.
Com base nessa informação, pode-se inferir que as evidências epidemiológicas disponíveis sugerem fortemente uma associação inversa entre atividade física e mortalidade.
Dessa forma, os dados apoiam a necessidade do estímulo da atividade física regular especialmente após os 50 anos de idade, visto que, é a manutenção da atividade física regular ou a mudança para um estilo de vida ativo que tem um impacto real na saúde e na longevidade.
Os efeitos do envelhecimento na aptidão física e capacidade funcional (PARAHYBA et al., 2005; MCGUIRE et al, 2007) têm sido bem descritos na literatura científica. Um dos efeitos do processo do envelhecimento no ser humano é a diminuição do nível de atividade física (INGRAM, 2000; AL-HAZZAA, 2007). Dados do Estado de São Paulo (MATSUDO et al, 2002) evidenciaram que o nível de sedentarismo se manteve constante (5,4% a 9,6%) nos grupos de 15-29, 30-49, 50-69 e mais de 70 anos de idade. Os dados do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul - CELAFISCS desde 1997, sugerem que mulheres envolvidas regularmente em atividade física mantêm o perfil antropométrico estável durante o processo de envelhecimento independente da idade cronológica (MATSUDO et al., 2002). Ao verificar a evolução de nível de atividade física das pessoas com mais de 50 anos (MATSUDO et al., 2006) foi observado que a prevalência de pessoas ativas aumentou 61% aproximadamente, enquanto a de irregularmente ativas diminuiu 60,0%.
De acordo com estudos realizados pelo CELAFISCS a recomendação de atividade física para a saúde durante o processo de envelhecimento ou para o idoso segue as mesmas linhas de recomendação para a população geral, como a proposta em 1995 pelo Centers for Disease Control (CDC) e o American College of Sports Medicine e a American Heart Association (ACSM), e atualizada em 2007. De acordo com o Posicionamento Oficial de Atividade Física para o Idoso, do ACSM e a American Heart Association, e o posicionamento da American Heart Association sobre a recomendação de atividade física em saúde pública no idoso, a recomendação enfatiza quatro aspectos chaves para a promoção de um envelhecimento saudável:
ü  Atividades aeróbicas: para a promoção e manutenção da saúde o idoso deve realizar atividades aeróbicas de intensidade moderada (5 a 6 em uma escala de percepção de esforço de 0 a 10) pelo menos 30 minutos diários em cinco dias da semana ou atividade vigorosa (7 a 8 na escala de 10 pontos) por pelo menos 20 minutos por dia em 3 dias da semana;
ü  Fortalecimento muscular: exercícios com peso realizados em uma série de 10-15 repetições, de 8 a 10 exercícios que trabalhem os grandes grupos musculares, de dois a três dias não consecutivos;
ü  Flexibilidade: atividades de pelo menos 10 minutos com o maior número de grupos de músculos e tendões, por 10 a 30 segundos; em 3 a 4 repetições de cada movimento estático, todos os dias de atividades aeróbicas e de fortalecimento;
ü  Equilíbrio: exercícios de equilíbrio três vezes por semana.

Os efeitos benéficos da prática regular da atividade física têm sido amplamente estudados (MATSUDO et al., 2000; NELSON et al., 2007) e incluem:
·         Efeitos antropométricos: controle ou diminuição da gordura corporal; manutenção ou incremento da massa muscular, força muscular e da densidade óssea; fortalecimento do tecido conetivo; melhora da flexibilidade.
·         Efeitos metabólicos: aumento do volume de sangue circulante, da resistência física em 10-30% e da ventilação pulmonar; diminuição da freqüência cardíaca em repouso e no trabalho submáxima e da pressão arterial; melhora nos níveis de HDL (lipoproteínas de alta densidade) e diminuição dos níveis de triglicérides, colesterol total e LDL (lipoproteínas de baixa densidade), dos níveis de glicose – diminuição de marcadores anti-inflamatórios associados às doenças crônicas não transmissíveis; diminuição do risco de doença cardiovascular, acidente vascular cerebral tromboembólico, hipertensão, diabetes tipo 2, osteoporose, obesidade, câncer de cólon e câncer de útero.
·         Efeitos cognitivos e psicossociais: melhora da auto-estima, imagem corporal, estado de humor, tensão muscular e insônia; prevenção ou retardo do declínio das funções cognitivas; diminuição do risco de depressão; diminuição do estresse, ansiedade e depressão, consumo de medicamentos e incremento na socialização.
·         Efeitos nas quedas: redução de risco de quedas e lesão pela queda; aumento da força muscular dos membros inferiores e coluna vertebral; melhora do tempo de reação, sinergia motora das reações posturais, velocidade de andar, mobilidade, e flexibilidade.
·         Efeito terapêutico: efetivo no tratamento de doença coronariana, hipertensão, enfermidade vascular periférica, diabetes tipo 2, obesidade, colesterol elevado, Osteoartrite, claudicação e doença pulmonar obstrutiva crônica; efetivo no manejo de desordens de ansiedade e depressão, demência, dor, insuficiência cardíaca congestiva, síncope, acidente vascular cerebral, profilaxia de tromboembolismo venoso, dor lombar e constipação.
O “segredo do envelhecimento bem-sucedido” parece estar em garantir um estilo de vida ativo. As prioridades na prescrição da atividade física durante o processo de envelhecimento incluem inicialmente a realização de exercícios com peso e de equilíbrio para garantir força muscular e evitar as quedas, respectivamente. Atividades aeróbicas de baixo impacto como: Caminhar, Pedalar bicicleta, Natação, Hidroginástica, Dançar, Yoga, tai-chi-chuan, Ginástica aeróbica de baixo impacto. Atividades aeróbicas para estimular o sistema cardiovascular e respiratório, seguidos dos movimentos corporais totais podem garantir flexibilidade e mobilidade articular, para tanto são necessárias mudanças para adoção de um estilo de vida ativo.
De acordo com Freitas (2007), em pesquisa no Recife com 120 usuários de dois programas de exercícios físicos, diversos foram os motivos apontados para a adesão à atividade, dentre eles: a melhoria da saúde, do desempenho físico, a redução do estresse, o fato de adotar um estilo de vida ativo, a prescrição médica, ou para recuperação de lesões, alguns para melhoria de auto-imagem, além de melhoraria na auto-estima e relaxamento.
Os benefícios da natação e hidroginástica para a terceira idade são indiscutíveis. São atividades para serem praticadas durante toda vida. O benefício fisiológico é significativo, pois ativa a parte circulatória, o coração fica mais saudável, a pessoa dorme melhor, se alimenta bem. Quem pratica esporte, em qualquer faixa etária, tem maiores chances de permanecer saudável a vida inteira.
As atividades físicas aquáticas provaram ser eficazes no desenvolvimento e manutenção das potencialidades físicas e também orgânicas. Um componente desse grupo de atividades é a hidroginástica, que vem cada vez mais ganhando adeptos por todo o mundo. Segundo alguns especialistas, os exercícios aquáticos são mais divertidos, agradáveis, eficazes, estimulantes, cômodos e seguros.
Na hidroginástica, o principal objetivo é o condicionamento cardiovascular e muscular, por meio do treinamento em flexibilidade, coordenação motora e relaxamento. Segundo especialistas, a hidroginástica é extremamente eficaz no combate ao estresse, além de contribuir para uma melhor qualidade de vida dos indivíduos.
Em contraposição às atividades realizadas no solo, a prática da hidroginástica não é acompanhada por dores, transpiração e sensação de exaustão. Dentro da água, o indivíduo tem uma sensação de redução no peso, o que reduz de maneira importante a tensão nas articulações. Com isso, os exercícios realizados dentro da água são desenvolvidos com maior facilidade, aumentando o rendimento de quem pratica e possibilitando a prática de atividade por um período de tempo maior. Como o impacto é reduzido, as dores e os espasmos musculares pós-atividades praticamente não ocorrem. O gasto calórico médio é de 260-400 Kcal/hora.
Um benefício bastante agradável da hidroginástica é a massagem proporcionada pela água, por meio da pressão e da resistência. Isso garante um efeito suavizante sobre a musculatura, ajudando a aumentar a circulação periférica de sangue e aliviando as tensões.
A hidroginástica, quando praticada regularmente e de maneira adequada, permite melhora em dos componentes do condicionamento físico, que são:
Ø  Aeróbico: melhora a capacidade cardiovascular e pulmonar;
Ø  Composição Corporal: a relação entre a massa magra e a quantidade de gordura;
Ø  Resistência Muscular;
Ø  Força Muscular;
Ø  Flexibilidade;
Outra vantagem importante da hidroginástica é que ela é uma das poucas atividades que podem ser realizadas por indivíduos com pouco ou nenhum condicionamento físico. Com isso, pessoas de qualquer idade podem praticá-la. A hidroginástica trabalha os músculos, a capacidade cardiovascular, a flexibilidade e melhora o condicionamento físico, realizando um trabalho no meio líquido com baixo impacto e de forma prazerosa. É bastante indicada para pessoas na terceira idade, pelo baixo impacto das atividades e pela sensação de peso corporal aliviado. A resistência que a água oferece ao movimento é 7 vezes maior do que o ar, e a carga é exercida de maneira proporcional à força realizada, conferindo grande segurança e baixíssimo risco de lesões.
A população de faixa etária de 60 anos ou mais  é o grupo que apresenta maior crescimento populacional, isso ocorre por conta da longevidade e qualidade de vida com que esta população está vivendo. A hidroginástica nesta faixa etária contribui para melhor qualidade de vida, sendo uma atividade física benéfica tanto para a saúde mental como, também, para a saúde física de quem a pratica. Através de exercícios físicos é possível alcançar boa qualidade de vida.
Para as pessoas da terceira idade a vida pode ser um desafio, principalmente para os inativos, os quais sofrem de doenças crônicas. Por isso, atualmente o exercício físico é considerado um tratamento de prevenção, principalmente para as doenças do coração e diabetes, melhorando, assim, a expectativa de vida. A prática de exercícios físicos contribui para a manutenção das capacidades funcionais, tais como, andar e agachar e, ainda ajuda a diminuir os riscos causados por uma vida sedentária. Para as pessoas que se encontram na faixa etária da meia idade e praticam algum tipo de atividade física regulamente correrão menos risco de sofrer de limitações físicas quando chegarem à melhor idade. A hidroginástica torna pessoas da terceira idade mais aptas e saudáveis, proporcionando melhor qualidade de vida por conta dos benefícios que oferece.
As atividades mais recomendadas pelos médicos para essa faixa etária são exercícios na água, principalmente a natação e a hidroginástica, sendo a hidroginástica o exercício ideal para pessoas que possuem problemas ósseos como artrose e osteoporose. A hidroginástica propicia o emagrecimento geral, fortalecimento e resistência muscular, melhora da flexibilidade, melhora do equilíbrio e também da coordenação, diminuição do estresse, contribuição para a reabilitação física e condicionamento físico geral.
A prática de qualquer exercício físico melhora o humor por causa da liberação de endorfina no organismo, o qual causa a sensação de bem estar e relaxamento, reduzindo a ansiedade e o estresse e permite o aumento da funcionalidade do sistema imunológico acarretando benefícios cardiovasculares e facilita o controle da obesidade, proporcionando benefícios psicológicos como melhora da auto-estima.

* Pesquisa realizada pela professora Rita de Cassia Fernandes 


REFERÊNCIAS

AL-HAZZAA, H.M. Health-enhancing physical activity among Saudi adults using the International Physical Activity Questionnaire (IPAQ). Public Health Nutr. 10(1), 2007. p.59-64.

FREITAS, C.M.S.M. Aspectos motivacionais que influenciam a adesão e manutenção de idosos a programas de exercícios físicos. Desempenho Humano. 2007.

GONÇALVES, A.K. Novo ritmo da terceira idade. In: Pesquisa Fapesp, n. 67, p. 68, Ag. 2001.

INGRAM, D.K.; Age-related decline in physical activity: generalization to nonhumans. Med.Sci.Sports Exerc, 32(9), 2000. p.1623-9.

LOPES, A. Os desafios da gerontologia no Brasil. Campinas – SP: Alínea, 2000.

MATSUDO, S.M.; MATSUDO, V.R.; ARAUJO, T. et al. Nível de atividade física da população do Estado de São Paulo: análise de acordo com gênero, idade, nível socioeconômico, distribuição geográfica e de conhecimento. Rev. Bras. Cienc. e Mov. 10(4), 2002. p.41-50.

MATSUDO, S.M.; MATSUDO, V.K.R.; ANDRADE, E.L.; ANDRADE, D.R.; OLIVEIRA, L. Evolution of physical activity level of people over 50-years old involved in a community physical activity promotion program. Med Sci Sports Exer. 38(5 Suppl), 2006. p.S305.

MCGUIRE, L.C.; STRINE, T.W.; OKORO, C.A.; AHLUWALIA, I.B.; FORD, E.S. Healthy lifestyle behaviors among older U.S. adults with and without disabilities, behavioral risk factor surveillance system, 2003. Prev Chronic Dis 2007.

NATAÇÃO E HIDROGINÁSTICA. Disponível em: <http://bioqexercicio208.blogspot.com/2008/11/bebs-todas-as-faixas-etrias-tiram.html>. Acesso: 02.mai.2011

NELSON, M.E.; REJESKI, W.J.; BLAIR, S.N. et al. Physical activity and public health in older adults: recommendation from the American College of Sports Medicine and the American Heart Association. Circulation. 166(9), 2007. p.1094-105.

PARAHYBA, M.I.; VERAS, R.; MELZER, D. Incapacidade funcional entre as mulheres idosas no Brasil. São Paulo: Revista de Saúde Publica/Journal Public Health, 39(3), 2005. p.383-91.
VIEIRA, E.B. Manual de gerontologia. Rio de Janeiro: Revinter, 1996.

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